FALL RIVER — Actuações de música tradicional e contemporânea, uma regata de botes baleeiros, palestra sobre caça à baleia, futebol, diversas actividades infantis e petiscos portugueses coloriram a celebração do Dia de Portugal em Fall River, no passado fim-de-semana, atraindo dezenas de milhares de pessoas à praça das Portas das Cidade.

“Pois estou feliz que tudo está a correr bem,” disse Floriano Cabral, em nome da comissão organizadora, no domingo de manhã, radiante pelo sucesso obtido, elogiando os colegas que com ele arregaçaram as mangas para elevar a qualidade das celebrações. “Temos uma comissão pequena, e todos trabalhámos em comum e eis o resultado,” acrescentou ele sorrindo.

Um dos momentos mais altos do fim-de-semana foi a actuação da popular banda Santamaria, que reuniu cerca de 10 mil pessoas junto às Portas da Cidade, segundo entidades municipais.

“Os Santamaria ficaram muito bem impressionados pela adesão do público, tanto no ano passado como este ano,” salientou Cabral.

Uma das novidades deste ano foi uma regata de botes baleeiros no Rio Taunton, com embarcações da Azorean Maritime Heritage Association e uma palestra sobre baleação pelo jornalista Pedro Bicudo, no Heritage State Park Museum, no domingo de manhã.

Bicudo discursou sobre o tema “Os Baleeiros do Rio Taunton” indicando que as pessoas geralmente focam a história da baleação em New Bedford, mas ela é “muito mais diversa, muito mais plural” e também tem ramificações em Fall River, e Somerset, assim como Bristol, Warren, e em variadíssimas outras comunidades ao longo da costa do Atlântico.

“É muito interessante verificar é que a primeira paragem dos baleeiros quando saiam para o Atlântico, era nos Açores, e a segunda paragem era Cabo Verde,” apontou Bicudo aos presentes. “Exatamente porque a vida era muito difícil, os jovens açorianos e cabo-verdianos eram os primeiros a serem seduzidos, engajados para continuar ao longo destes três, quatro anos de empresa baleeira.”

“De maneira que acabavam muitos por vir para a América, e são estes os nossos primeiros, são estes os pioneiros da nossa emigração — eles começaram a chegar cá ainda a América era uma colónia Britânica,” partilhou com a audiência interessada sobre o assunto temático.

“Portanto, nós quando falamos na baleação lágica, estamos a falar na baleação do oceano, a baleação aberta,” continuou Bicudo. “Mas a baleação aberta depois era feita quando era avistada a baleia, eram lançados os pequenos botes baleeiros que iam à caça da baleia — eram eles que arpoavam, eram eles que trabalhavam a baleia e que depois inclusive, a arrastavam para bordo.”

“Mas há aqui uma coisa extremamente interessante que é o seguinte: “Uma vez que a filosofia Quaker dominava toda a orgânica a bordo, a vida a bordo era dificílima — o pagamento era miserável, mas quem fosse numa segunda e quem fosse numa terceira [viagem] ia sempre melhorando a sua condição,” continuou Bicudo, advertindo que essa meritocracia, era contra a hierarquia à vida nas ilhas porque quem nascia pobre, morria pobre.

“Portanto, a baleia representava duas coisas, primeiro, a possibilidade de vir para a América, e segundo, a possibilidade de escapar à escravidão da ilha,” frisou.

Com preparação na área de geografia económica, e mais tarde no jornalismo, Bicudo captou a atenção da audiência, pois o assunto emigração é tão relevante hoje como nos séculos XVIII, XIX e XX. 

“A minha visão é como jogar este diálogo no Atlântico de perceber o que é que acontecia na América e o que é que acontecia em Portugal ao mesmo tempo,” disse ele procurando relacionar os eventos em termos de perceber estas inter-relações e as consequências delas.

“É esse diálogo de ideias, de resposta, de sobrevivência que marcam tanto também a nossa vivência na ilha e também a razão de vir para a América, de ter este sonho da América,” relatou Bicudo, sendo ele próprio emigrante micaelense em terras do Tio Sam. “Este não é um sonho dos anos 50 ou 60,” advertiu ele. “É um sonho dos anos 20, mas dos anos 60 e 70 de 1700 — de há muito tempo,” concluiu o orador exímio.